Terceirização nos condomínios: Operação dos serviços requer ‘tecnologia” operacional

Limpeza a seco, regas de jardins mais espaçadas e em horários de menor evaporação, melhor aproveitamento da água: essas são algumas das medidas que figuram entre os novos procedimentos que os condomínios estão adotando para enfrentar a seca nos reservatórios de São Paulo e região metropolitana. E para repassar isso aos funcionários terceirizados, é preciso rever parte do plano de trabalho com o supervisor da prestadora de serviços, treinar a equipe e mantê-la orientada por um líder. De outro modo, é fundamental saber que alguns produtos não podem ser utilizados simultaneamente, “para evitar a contaminação cruzada”, observa Elisangela Mélega, diretora da Câmara de Prestação de Serviços da Abralimp (Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional).

Ou seja, a operação de tarefas aparentemente simples do dia a dia de um condomínio requer conhecimento e até mesmo especialização, configurando uma verdadeira ‘tecnologia’ operacional. “Dois produtos químicos não devem ser utilizados em um mesmo ambiente, como em uma academia e na brinquedoteca”, exemplifica Elisangela. Eles podem causar intoxicação, entre outros. Já a coleta de lixo deve seguir os parâmetros da Política Nacional de Resíduos Sólidos, enquanto o manuseio de máquinas e acessórios exige treinamento.

Também na área de portaria e vigilância, os procedimentos devem atender a leis e normas, além de estar embasados em um plano de segurança, alerta João Palhuca, presidente do Sesvesp (Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado de São Paulo). Do ponto de vista legal, não é permitido que os profissionais da área façam revistas pessoais em condôminos, visitantes ou prestadores de serviços. Por outro lado, um porteiro ou vigilante não deve entregar jornais, correspondências ou desempenhar qualquer tarefa do zelador, ilustra Palhuca. “Isso gera uma intimidade com o profissional que desvirtua o sistema de segurança”, explica.

E uma das saídas que os condomínios encontram para garantir procedimentos seguros e adequados dos terceirizados é desenvolver uma boa gestão dos contratos, receita utilizada pelo Edifício Plaza JK, torre comercial localizada no Itaim Bibi, zona Sul de São Paulo. O supervisor predial Manoel Barbosa do Nascimento gerencia diariamente o relacionamento do local com diferentes empresas de terceirização, como de portaria, limpeza e manutenção, entre outras. No total, são 23 funcionários terceiros, para os quais o condomínio exige treinamento constante e concessão de benefícios extras.

Um deles é o prêmio assiduidade instituído pelo Plaza JK aos funcionários que cumprem horários e mantém boa apresentação pessoal, benefício repassado por intermédio das prestadoras. E quem justifica as razões dos pagamentos extras é o síndico Sérgio Freitas: “Damos também um valor maior para o vale-refeição e apoiamos confraternizações, pois existe hoje uma preocupação muito grande com o relacionamento humano e o bem-estar”. Sérgio reconhece que a medida ajuda também a fidelizar funcionários qualificados.

No Edifício Plaza JK, o supervisor Manoel Barbosa (à esq.) e o síndico Sérgio Freitas exigem treinamentos da equipe terceirizada, mas repasssam benefícios extras

LÍDER DE EQUIPE

Como não pode haver subordinação direta entre o tomador de serviços (condomínios) e a mão de obra vinculada ao prestador, a estratégia adotada pelas partes tem sido definir um líder entre os trabalhadores. No edifício comercial New Empire, situado no bairro de Vila Mariana, o síndico Sandro Marin conta que se destaca um funcionário entre os terceiros para fazer a ponte diária com o supervisor, o qual, por sua vez, atua como o ponto de contato com o gerente do condomínio. A regra encontra-se prevista em contrato e estabelece que cada líder receba da prestadora um rádio para comunicação direta com o supervisor. “Este deve acompanhar o trabalho, fazer ajustes, corrigir posturas e dar orientação”, observa. Ou seja, o líder recebe a função de ser os olhos e a voz do supervisor no ambiente do trabalho.

Do lado dos condomínios, porém, também há responsabilidades, como se organizar internamente para avaliar, pelo menos uma vez por mês, o desempenho da prestadora; desenvolver um bom cronograma de trabalho; e dispensar um tratamento humano aos terceirizados. “Eles precisam se sentir parte da equipe, receber cumprimentos. Juiz nenhum vai poder me sentenciar por sorrir e dar bom dia”, afirma Sandro Marin.

TREINAMENTO

Outro ponto fundamental para o sucesso do contrato é habilitar e treinar os funcionários, afirma Elisangela Mélega, da Abralimp. Por exemplo, na manutenção de uma superfície, os procedimentos de limpeza da sujidade mais pesada diferem e muito das tarefas de conservação diária. Por outro lado, essas operações nada têm a ver com o tratamento de piso, trabalho a ser desempenhado por empresa especializada.

Tudo isso deve estar vinculado a um plano de trabalho previamente acordado com o tomador, com previsão dos postos a serem alocados, tarefas, cronograma, equipamentos, materiais e insumos. Plano esse que deve ser periodicamente atualizado e ajustado às necessidades do condomínio e às mudanças das normas. É o caso da restrição ao uso de lixeiras nos halls internos dos apartamentos em São Paulo, que impõe uma mudança na sistemática da coleta de lixo, arremata Elisangela.

Uso do celular no expediente, um grande problema

A síndica profissional Marta Girardin (Foto ao lado) sugere atenção especial sobre o comportamento dos funcionários durante o expediente do trabalho. Um dos pontos que ela mais chama atenção é para o papel do supervisor na disciplina dos hábitos e posturas de sua equipe.

“O supervisor tem que ser bem ativo, passar no posto, saber o que está acontecendo no condomínio, identificar as dificuldades que o funcionário tem, se é com o morador ou com o perfil do prédio. O supervisor não pode aparecer apenas quando é chamado. É preciso vir na parte diurna e noturna, dar umas incertas. O que mais acontece é funcionário que fica direto com celular e cigarro na mão.”

Outra dificuldade que ela nota é a de se acertar o tipo adequado de pessoa para a tarefa a ser desempenhada. “Não adianta colocar gente que desfila o dia inteiro para fazer trabalho pesado de limpeza de vidro”, diz. A síndica defende ainda que as prestadoras exijam boa comunicação interpessoal e hábitos saudáveis na hora de contratar a mão de obra, sem negligenciar, por outro lado, a necessidade de treinamento constante.

NORMAS

“Não se terceiriza a pessoa, mas o serviço!”

Com a profissionalização da área do trabalho, sai de cena cada vez mais a figura do funcionário que “faz de tudo um pouco”, encarregado de limpar, lavar, recolher o lixo, cuidar do jardim e tratar a água da piscina. Segundo Joelma de Matos Dantas, advogada e gerente jurídica do Sindeprestem, sindicato das empresas de trabalho temporário e terceirização, tomadores e prestadores de serviços devem ficar atentos aos parâmetros estabelecidos pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) na hora de definir o tamanho da equipe e as tarefas de cada um. “Não se terceiriza a pessoa, mas o serviço!”, diz. As normas foram criadas pela Portaria 397/2002, do Ministério do Trabalho e Emprego.

Demais aspectos legais têm que ser considerados, como o veto à subordinação direta do terceirizado com o tomador, o que significa, por exemplo, que um condômino jamais poderá solicitar ao funcionário que limpe uma determinada área. A ordem deverá vir de seu líder ou supervisor. Também entram em pauta normas de segurança do trabalho, como o uso de EPI (Equipamentos de Proteção Individual), principalmente para o trabalho em altura.

Nesse quesito, Elisangela Mélega, da Abralimp, lembra que a limpeza de vidros prevista no plano de trabalho deverá considerar a altura da superfície envolvida. Em prédios com vidros muito altos, será preciso contratar pessoa específica e conceder-lhe equipamentos apropriados. O mesmo acontece para a limpeza de marquises.

Segundo o advogado Danilo Santos Moreira, pós-graduado em direito trabalhista, “a forma de orientar o trabalhador deverá ocorrer sempre por intermédio da empresa fornecedora da mão de obra. Cabe ao supervisor orientar, treinar e monitorar o terceirizado”. Mesmo que haja demanda de qualificação do funcionário para entender e manusear sistemas específicos do condomínio, o treinamento terá que ser oferecido pelo prestador, finaliza Danilo.

 

Fonte: Direcional Condomínios