Prédios usam aviso como vacina contra patrulha da água

Ninguém perguntou, mas o recado está sendo dado. Às vezes, até em dobro, como no edifício Irapuã e Irajá, na alameda Lorena, nos Jardins (zona oeste de São Paulo).

Colados em suas grades brancas, dois cartazes informam: “Este condomínio está utilizando água de reúso”.

Nos últimos meses, placas com mensagens como essa têm feito companhia às tradicionais “proibido estacionar” e “favor se identificar na portaria” na capital paulista.

A novidade é reflexo da “patrulha da água” surgida em decorrência da crise hídrica vivida no Estado.

“Quando o zelador estava com um balde regando as plantas ou lavando a entrada do prédio, algumas pessoas paravam e gritavam ‘Vou denunciar! Não pode desperdiçar água’. O pessoal ficava agressivo”, diz Marli Fradusco, 70, síndica há 21 anos do Irapuã e Irajá.

Placa em prédio da alameda Lorena, em SP, avisa sobre uso de água de reaproveitamento

E, segundo ela, não adiantava o porteiro explicar que o condomínio possui um sistema de captação de chuva e que muitos moradores coletam a água que sai da máquina de lavar roupa para limpar as áreas externas do prédio.

“Aí decidi colocar dois avisos bem grandes. Agora, pararam de brigar com a gente.”

Em sua vizinhança, o aviso pegou. A uma quadra dali, na alameda Casa Branca, o edifício comercial Bristol colocou um grande letreiro amarelo: “Neste prédio utilizamos para limpeza de áreas de uso comum água de origem freática, acumulada em sisterna (sic) subterrânea”.

Também o empório de luxo Casa Santa Luzia informa em sua entrada que não utiliza água da Sabesp (empresa de saneamento).

O mercado diz que a placa foi colocada antes da crise de abastecimento e avisa que o local possui poço artesiano.

‘TERRORISMO’

Em Perdizes (zona oeste), o condomínio Porto Seguro foi mais sucinto: “Temos poço artesiano (mina). Grato”.

A síndica Rozailci Pereira, 66, há 12 anos na função, conta que os patrulheiros do desperdício passavam por ali com os celulares a postos quando viam os porteiros com baldes de água. “As pessoas reclamam sem saber que não é da Sabesp. Achei melhor botar o aviso”, diz.

A consultora de etiqueta Claudia Matarazzo considera uma forma de “terrorismo” quem aponta os telefones celulares para os funcionários querendo denunciá-los antes de conversar.

“Aí já é uma catarse de algumas pessoas. Entendo que a crise da água é um assunto visceral, mas é preciso ter calma, conversar”, afirma.

Fonte: Folha de S. Paulo