Poluição sonora tem sido fator determinante na compra do imóvel

Se mal amanhece o dia e o ruído da rua invade o quarto, é hora de pensar em solução acústica. Barulho e sons incômodos já fazem parte do repertório de perguntas de quem deseja comprar imóvel.

 (Eduardo Almeida/RA Studio)

O mercado imobiliário comercializou cerca de 2,7 mil unidades no ano passado, de acordo com pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead). Foram cerca de 2,4 mil lançamentos somente na capital mineira. E um dos setores que mais lucrou com isso foi o de isolamento acústico, com aumento de 12% ao ano em função de autuações de estabelecimentos comerciais que não respeitam a Lei do Silêncio, e porque a poluição sonora tem sido um fator determinante na compra do imóvel. Para Diogo Catarino, consultor imobiliário da unidade imobiliária RE/Max Diamond e sócio da Lages Engenharia, a procura pelo tratamento acústico e térmico cresceu nos últimos anos. “As pessoas estão avaliando com mais frequência a poluição sonora da região que visitam, atenta ao barulho de bares, restaurantes, boates, tráfego e até mesmo de futuros vizinhos”, diz.

Mas, na maioria das vezes, esse levantamento fica difícil, uma vez que não há como prever quem irá ocupar os apartamentos vizinhos em caso de imóveis novos e nem que uma boate irá se instalar futuramente na região, explica. Para isso, ele aconselha o proprietário a investir em recursos que possam vir a blindar os ruídos. “O investimento próprio é a grande solução na valorização e no conforto do imóvel, bem como na proteção de barulhos externos”, justifica Diogo. Uma das opções mais solicitadas é a colocação de vidro duplo e portas reforçadas, que aumentam também a segurança do imóvel. Ele diz que o serviço é cobrado por metro quadrado.

João Edson Carvalho, especialista em conforto acústico da dBest, explica que atualmente as pessoas estão buscando isolar o ambiente dos barulhos da cidade. “O motor dos ônibus, as buzinas, os escapamentos de motos, entre outros, são os agentes mais agressivos que motivam as pessoas a buscar soluções de conforto. Normalmente, elas fazem isso quando se sentem incomodadas, principalmente no período do amanhecer, quando acordam por causa do barulho, quando poderiam dormir um pouco mais. Vale a pena ressaltar que o barulho pode provocar estresse, dores de cabeça, falta de concentração, bem como atrapalhar significativamente o sono, lembrando que as crianças são ainda mais sensíveis.”

Mas, ele salienta que não é preciso abrir mão do imóvel dos sonhos por causa do barulho, pois existem diversas opções de produtos e tecnologias no mercado que contribuem para o controle dos ruídos. “Com o isolamento acústico, conseguimos controlar o ruído dentro do limite estabelecido pela Organização Mundial de Saúde de 50 decibéis (dB) durante o dia e de 5 a 10 dB à noite”, garante. Ele trabalha com diversos tipos de isolamentos específicos em função das características do barulho que se quer controlar. Isso varia entre materiais de absorção ou bloqueio do ruído, como é o caso das janelas acústicas, e até mesmo de adaptações, como a localização estratégica de um determinado móvel.

O engenheiro salienta que o recurso do isolamento é empregado principalmente em apartamentos, onde a preocupação com os ruídos é maior devido à proximidade com os vizinhos e à estrutura dos próprios imóveis: “Para identificar a melhor forma de reduzir o barulho é preciso realizar um processo de caracterização do ambiente e, posteriormente, desenvolver um projeto para o local. As janelas comuns têm estrutura e vidro permeáveis, que o ruído facilmente transpõe. Para solucionar esse problema, a janela acústica consegue reduzir o barulho externo com excelência. A qualidade na percepção auditiva é essencial para evitar o desconforto mental, físico e social.”

Conforto

O engenheiro João Edson observa que existem materiais que são mais eficientes para bloqueio de um ruído mais agudo e outros mais eficientes para o controle de ruído mais grave. “Um bom estudo de engenharia avaliará quais os materiais mais eficientes para o ruído que causa incômodo e desconforto, viabilizando projetos com custos menores, sem querer controlar o ruído por ensaio e erro. Existem diferenças de materiais para controle do ruído, seja para bloquear o que que incomoda vizinhos, seja com a finalidade de melhorar a acústica no próprio ambiente. Uma espuma usada para adequação e conforto acústico em um estúdio de gravação não vale nada para o bloqueio do ruído que incomoda o ambiente externo.”

João Edson ressalta que a dBest é uma empresa especializada em projetos e obras para controle do ruído. Desde o ruído industrial, em projetos de grande porte, necessários para controlar a saúde do trabalhador, até estúdios e ambientes de cultos, entre outros, onde é preciso ter conforto acústico. “Atuamos em todos os segmentos. A especificação técnica define o tipo de composto para cada necessidade, bem como analisa todas as restrições para a segurança do ambiente. Para o residencial, home-theater e de salas de atendimento de médicos, dentistas e psicólogos oferecemos portas, forros e janelas antirruídos. Também oferecemos para ambientes de escritórios, forros e divisórias com ou sem visores, que absorvem e bloqueiam os ruídos de uma sala para outra.”

O dono da dBest diz que, atualmente, a maior procura é por janelas e portas antirruídos, pois a pessoa que está sendo perturbada não quer se indispor com quem está lhe causando incômodo. “Todo isolamento acústico tem uma resultante térmica. Sempre que desenvolvemos um projeto para conforto acústico consideramos essa premissa. Oferecemos climatização em ambientes como igrejas, supermercados, salões de festas etc. com significativa economia de energia. Entretanto, o isolamento térmico não é o mais procurado, como é o caso do isolamento acústico, principalmente por empreendedores que têm alguma demanda com vizinhos próximos ou no caso de moradores de imóveis expostos aos ruídos da cidade, que não podem ser controlados.”

João Edson esclarece que o preço das janelas antirruído varia de R$1,8 mil a R$ 4 mil e as portas acústicas têm preço entre R$ 3,5 mil e R$ 5 mil. “O preço para isolamento do ruído na fonte, por barreiras, cabines ou biombos, é definido em função da complexidade do projeto. Quando os empreendedores entenderem que o valor para controle do ruído é investimento e não despesa ou custo, mais projetos serão viabilizados.

Livre do ruído
Brigar com vizinhos ou dormir com o som de veículos e motos não é fácil. Para esses casos existem soluções tanto para quem faz barulho quanto para quem quer ficar longe dele

Ambiente com isolamento acústico para crianças, as mais atingidas pelos efeitos da poluição sonora  (Zoom/Divulgação)

Cristiano Simões, cantor, instrumentista e dono do estúdio de gravação Pacific Studio, localizado no Bairro Sion, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, conta que teve que fazer um trabalho todo especial no imóvel para não incomodar os vizinhos durante as gravações. “Em 2006, assim que voltei de Los Angeles (EUA), onde me graduei em produção musical e engenharia de som, comecei a montar o estúdio, no qual trabalho com meus projetos desde então. Sendo o imóvel próprio, tive liberdade de remodelar o local de acordo com as minhas necessidades. Para esse processo, chamei o técnico acústico André Viana e, juntos, idealizamos o projeto para a construção do estúdio, que ficou muito bom”, lembra o músico e empresário.

Ele notou, inicialmente, que a lateral da sala próxima ao prédio vizinho já tinha uma parede de 30 centímetros com vigas de concreto, ideal para o começo do isolamento. “Fizemos um forro de gesso nas paredes e no teto da sala. O forro foi fixado a aproximadamente 10cm de distância da parede de tijolos e, entre eles, colocamos folhas de lã de vidro. As medidas do gesso dentro da sala ficaram de acordo com o projeto de tratamento acústico. Essas medidas assimétricas foram feitas para evitar frequências estacionárias”, explica Cristiano.

O produtor musical salienta que o Pacific Studio tem uma janela e o “aquário” entre a sala de gravação e a técnica foram feitos com vidro triplo de espessuras diferentes. “O chão foi suspenso com madeira e borracha para evitar propagação de som pelo solo, e o rodapé foi separado com tiras de borracha, ficando isolado da parede de gesso. Depois de pronto, partimos para o tratamento acústico da sala, com a colocação de painéis de lã de vidro em pontos estratégicos. Conseguimos um ótimo nível de isolamento de som, tanto para fora do estúdio quanto para a sala da técnica. Assim, não incomodamos também nossos vizinhos, mesmo os mais próximos, uma vez que o resultado final foi ótimo”, garante Cris.

Antônio Zumpano, supervisor de vendas comprou um apartamento no final do ano passado no Bairro Luxemburgo, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, nas imediações do Hospital Luxemburgo, e passou por sérios problemas até se decidir pelo isolamento acústico. É que o apartamento de cobertura absorvia todo o barulho provocado pelo fluxo de automóveis. “Meu filho não conseguia dormir tranquilamente e as noites se tornaram um tormento. Tentamos, em vão, nos acostumar com a situação, até que decidimos recorrer às janelas antirruídos. Essa alternativa realmente resolveu o problema. Costumo brincar dizendo que hoje temos até dificuldade para acordar no horário certo devido ao silêncio absoluto que reina no interior do apartamento”, diz.

Marcelo Alves de Oliveira, empresário e morador da região da Savassi, há mais de 10 anos não suportava mais o barulho de uma casa de som próxima à sua residência e que funciona nos fins de semana. “Antes, meu apartamento não tinha tratamento acústico, mas confesso que chegamos a nos acostumar com o barulho do tráfego lá fora, que é mais intenso somente no horário de pico. Depois, quando o barulho dos automóveis diminui, tudo fica mais calmo e, na hora de dormir, é mais tranquilo. Porém, quando começa a música na casa de shows é terrível, pois o barulho se expande pela madrugada. O jeito foi recorrer ao tratamento acústico, uma vez que, apesar das nossas reclamações, os donos da tal casa de shows sequer ouviram nossos apelos.”

O morador se viu obrigado a contratar uma empresa especializada em isolamento acústico. “Felizmente, deram um jeito, usando vidros duplos e até triplos em todas as janelas. Agora, basta fechar as janelas e o barulho desaparece por completo, graças a Deus. Tive que gastar dinheiro, mas valeu a pena, pois a tranquilade voltou a reinar lá em casa. Acredito que esste trabalho tenha ajudado até a valorizar o imóvel. Infelizmente, a casa continua funcionando e o barulho da música ainda é muito alto, mas quando começa, fechamos as janelas e tudo fica mais silencioso”, garante o empresário.

Fonte: Lugar Certo