O caminho do rei

Na época da monarquia, o local por onde o rei e sua comitiva passavam era chamado de “o caminho do rei”. O trajeto deveria estar limpo e perfumado, de forma a causar boa impressão à nobreza.

Em tempos de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos no Brasil, o atual “caminho do rei” vem sendo preparado com obras suntuosas e certa maquiagem. Quando tal fenômeno acontece, as prioridades ficam em segundo plano. Esse movimento ocorre também em edifícios.

É incrível a preocupação dos condomínios com obras de embelezamento e melhorias desnecessárias em detrimento do investimento em segurança, sustentabilidade, salubridade, treinamento e capacitação. Nos últimos meses, acompanhei três casos que ilustram a prática.

O primeiro, um condomínio de alto padrão no bairro do Morumbi, aprovou o investimento de mais de R$ 200 mil na modernização da academia, decoração para o hall de entrada e aquecimento da piscina.

A contratação de um engenheiro para averiguar as instalações elétricas, hidráulicas e civis, no entanto, foi postergada sob a alegação de que está tudo bem no prédio. E a importância da prevenção para evitar acidentes graves?

O segundo, um condomínio em Moema, aprovou uma verba extraordinária de R$ 80 mil para blindar a guarita e reformar os jardins. Na mesma assembleia, foi aprovada a contratação de novos porteiros (e o desligamento de alguns funcionários antigos) para atingir uma economia mensal na folha de salários de R$ 60 por apartamento.

De que adianta uma guarita blindada com funcionários despreparados e mal remunerados?

Por fim, um condomínio de grande porte em Osasco pretende investir quase R$ 500 mil no embelezamento e na modernização dos elevadores. O edifício sequer conseguiu atender, no entanto, normas fundamentais de segurança e salubridade –eis que não tem brigada de incêndio e laudo bacteriológico da água.

Como gastar uma fortuna nos elevadores com o condomínio à beira de um colapso administrativo?

Daí a importância de estabelecer um planejamento consistente para este ano, em que as prioridades sejam, de fato, levadas a sério.

Fonte: Folha de São Paulo