Elétrica: Com acréscimo de carga, condomínios se adaptam a um novo perfil de consumo de energia

Duas situações mais frequentes têm levado os condomínios a solicitar aumento de carga de energia elétrica junto às concessionárias. Primeiro, o uso cada vez mais arraigado de novos equipamentos no ambiente doméstico, como ar-condicionado ou mesmo aquecedores. Segundo, a identificação de irregularidades graves nas instalações, como cabos com sinais de aquecimento, a presença de caixas inteiras de madeira (contexto inadequado às normas técnicas atuais) ou existência de peças e demais elementos danificados.

Segundo o especialista da área Rodrigo Henriques, é comum se observar casos de falta de compatibilidade entre a capacidade de carga do centro de medição do prédio e a demanda solicitada pelos apartamentos que passaram por reformas ou modificações internas. “Em muitos casos os disjuntores das unidades são substituídos por disjuntores com a corrente de desarme acima do que os cabos das prumadas e do centro de medição suportam, ocasionando sérios riscos aos moradores.

Isso já é um indício da necessidade de aumento de carga”, afirma. Como as instalações elétricas dependem do funcionamento integrado entre seus sistemas (centro de medição, prumadas elétricas e quadros de distribuição), os condomínios têm optado por fazer a repaginação completa da área ao solicitarem o acréscimo.

“Na maioria dos casos o centro de medição existente foi projetado para atender a demanda de energia estimada na época de construção da edificação, comportando assim os equipamentos de uso padrão daquele período. No entanto, apesar da economia proporcionada por alguns equipamentos mais modernos, estamos utilizando cada vez mais aparelhos elétricos, alguns deles de potência elevada, como chuveiros elétricos, aparelhos de ar-condicionado, aquecedores, lavadora e secadora de roupas, entre outros. Desta forma, recomenda-se atualizar a infraestrutura das instalações, para atender a demanda futura”, pondera Rodrigo.

Esta foi a experiência do Edifício Nicola Pardelli, localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo. De acordo com o ex-subsíndico e engenheiro elétrico Jair Francisco de Andrade Pinheiro, a perspectiva de um consumo maior nas unidades, em médio e longo prazo, os levou a optar pelo acréscimo de carga, durante os trabalhos de retrofit do sistema elétrico. Já no caso do Edifício Santa Bárbara, do bairro da Saúde, zona Sul da cidade, a própria concessionária de energia foi quem indicou a necessidade de mexida, já que os quadros força eram de madeira e estavam infestados de cupim.

“Na verdade, foi uma obra preventiva, para que não haja preocupação no futuro com o excesso de demanda”, revela a síndica Sueli Borsatti, há oito anos no cargo. “As obras foram pagas por rateio extra e envolveram a troca do transformador, instalação de uma nova prumada e centro de medição.” A síndica aproveitou para instalar fibra óptica para a telefonia e novo quadro elétrico para os elevadores. “Deu muito trabalho, mas a busca pela segurança justifica todo esse transtorno, pois o prédio foi projetado há 40 anos, época em que as pessoas não tinham tantos aparelhos elétricos e eletrônicos.”

PASSO A PASSO

O acréscimo de carga segue um roteiro complexo e depende de aprovação da concessionária de energia. Edson Martinho, engenheiro eletricista, presidente da ABRAEL (Associação Brasileira de Eletricistas) e diretor-executivo da Abracopel (Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade), recomenda a contratação de especialistas na área, para que façam um diagnóstico das instalações e da demanda, desenvolvam o projeto executivo, encaminhem o processo e acompanhem os trabalhos.

Para o dimensionamento da demanda, é imprescindível a participação do profissional da área, reitera Martinho. Ele explica: “O consumo de energia de um edifício não pode ser dimensionado de forma linear. Por exemplo, se houver 30 unidades com 30 chuveiros elétricos, não iremos projetar uma carga como se todos viessem a funcionar simultaneamente. A potência média dos chuveiros varia de 5.600 a 9 mil watts, se todos os 30 forem ligados ao mesmo tempo, teremos uma demanda de 270 quilowatts. Há um índice padrão no mercado para dimensionar esses consumos. Por unidade residencial, é de 0,85. Já nos edifícios, a conta é outra e varia de caso a caso”.

Resolvido esse ponto, o especialista Rodrigo Henriques resume a seguir o passo a passo de um processo de pedido de acréscimo de carga, acompanhado de adequações mínimas do sistema elétrico.

1. Diagnóstico

Realiza-se uma inspeção geral no centro de medição e quadros de distribuição para verificação das caixas, cabos e dispositivos de proteção, de modo a levantar possíveis irregularidades, a condição que apresentam. Em paralelo é feita a relação de cargas padrão para as unidades consumidoras e administração, posteriormente comparadas com os cabos e proteções das prumadas e centro de medição. Por fim, os dados coletados são analisados, confirmando-se a necessidade ou não do acréscimo de carga e/ou da manutenção corretiva do sistema elétrico.

2. Etapas

Definida a necessidade do acréscimo de carga, os trabalhos envolvem as seguintes etapas:

- Elaboração de projeto executivo para reforma do centro de medição com acréscimo de carga (este depende de aprovação da concessionária de energia);

- Reforma do centro de medição conforme projeto aprovado;

- Substituição das prumadas das unidades conforme demanda dimensionada em projeto;

- Reforma dos quadros internos das unidades, caso necessário.

Os relógios de medição são substituídos durante a reforma do centro de medição pela concessionária de energia.

3. Prazo das obras

Ele varia de acordo com o tamanho do condomínio e as dificuldades encontradas, mas em geral se estima um período de 60 a 90 dias para elaboração e aprovação do projeto junto à concessionária de energia. Depois disso, são necessários, em média, 90 dias para a execução da reforma do centro de medição e substituição das prumadas das unidades.

4. Desligamentos da rede

A concessionária de energia fica responsável pela análise do projeto, inspeção da execução dos serviços no centro de medição, realização de desligamentos e modificações na rede e instalação dos equipamentos de medição para cobrança.

Na maioria dos casos são realizados dois desligamentos: para a ligação da provisória de obra (sistema independente de energia que vai alimentar provisoriamente o edifício todo durante o período de reforma) e, depois, para a transição ao novo sistema definitivo (já reformado). Os desligamentos costumam ter duração de aproximadamente 6 horas e são realizados fora dos horários de pico, sendo comunicados aos moradores com pelo menos sete dias de antecedência.

5. Custos

Variam de acordo com a carga solicitada, número de unidades e grau das intervenções. O prestador de serviços contratado deve cuidar de todo o processo de aprovação e liberação junto à concessionaria. Os relógios são de propriedade da concessionária, que arca com sua instalação e manutenção.

6. Simulador de energia

A AES Eletropaulo, concessionária de energia que atende à cidade de São Paulo e municípios da região metropolitana, lançou um simulador online que calcula o consumo de energia dos aparelhos domésticos nas unidades habitacionais e áreas externas (são informados tipos e quantidade de equipamentos, potência, frequência e tempo de uso). Em comunicado divulgado aos clientes, a empresa solicita que seja informada quando houver “aumento significativo no perfil de consumo”. O serviço poderá ser acessado através do link: http://consumomaisinteligente.com.br/simulador.

Álbum: Adequando as instalações

Para atender ao acréscimo de carga, as edificações precisam renovar as instalações elétricas, total ou parcialmente, o que depende da análise de cada contexto. No entanto, é preciso modernizar pelo menos os três setores aqui apresentados, afirma o especialista Rodrigo Henriques. As imagens são da reforma realizada no Condomínio Edifício Planeta, em Higienópolis, região central de São Paulo, onde foram reaproveitadas e adequadas as caixas existentes.

CAIXA DE PROTEÇÃO E MANOBRA

O setor não existia no prédio. Foi adicionado ao sistema para permitir que as caixas de medição e administração possam ser desligadas separadamente, caso haja necessidade de manutenção pontual no sistema.

 

CAIXA SECCIONADORA DE ENTRADA

Ela tem a função de receber e seccionar os cabos que vêm da rua. Constitui-se no primeiro ponto de recepção de energia no condomínio.

CAIXA PORTA-BASE DAS MEDIAÇÕES

Aloja os dispositivos de proteção (disjuntores) individuais dos apartamentos e faz a interligação entre os cabos que saem dos medidores e as prumadas dos apartamentos.

Fonte: Direcional Condomínios