Como buscar soluções amigáveis nos conflitos em condomínios

Ainda repercutindo a morte de três pessoas no final do mês de maio, publicamos a seguir uma entrevista com um especialista.

DC: Até que ponto o síndico deve mediar conflitos entre moradores?

Hernán Vilar: O síndico é um morador, portanto, é uma pessoa que está implicada e envolvida nas questões complicadas que surgem no relacionamento entre vizinhos. É muito difícil para o síndico manter total isenção frente aos inúmeros problemas que podem ocorrer.

Outro ponto que merece ser mencionado é que o síndico não é necessariamente um especialista capaz de sair do senso comum e tratar os problemas como um profissional da Psicologia.

Isto posto, é meu entendimento que o síndico é o primeiro ponto de contato quando um problema surge. Caso o síndico sinta-se respaldado e confortável para tratá-lo e encaminhá-lo a uma resolução, isto deve prontamente ser feito! Deixar um problema sem resolução equivale a correr o risco de vê-lo aumentado no futuro.

Contudo, há problemas que podem exigir uma abordagem que saia do senso comum, ou seja, problemas que por sua natureza sejam delicados de serem abordados, quanto mais serem tratados. Quando pensamos nos barulhos que nos incomodam vindos do apartamento ao lado ou acima, sempre nos ocorre pensar nas batidas de pé no chão, no cachorro com seus latidos e unhas no assoalho oco ou no som alto da TV. Isto me parece trivial e simples de ser abordado e tratado. Mas e quando um casal se excede nos ruídos íntimos? Eu tenho um vizinho que quando assua o nariz pela manhã, causa um ruído que pode ser ouvido a quilômetros de distância! Como tratar isto?

Há dois momentos bem distintos que podem ter a presença de um psicólogo: na assembleia de condôminos e, posteriormente, antes que o condomínio aplique uma multa por desrespeito ao estatuto ou Regimento Interno.

Durante a assembleia, o psicólogo poderá abordar uma série de temas e, entre estes, trazer à tona algo que tenha acontecido ou que necessite de abordagem. Utilizando-se de uma série de técnicas, entre elas a escuta psicológica, o profissional pode tratar de temas complicados e relevantes, fazendo com que os condôminos se percebam e se impliquem na resolução do ocorrido.

Caso uma disputa ou desentendimento entre vizinhos tenha tomado uma proporção que o síndico não consegue manejar através do bom senso e de suas experiências, então o psicólogo poderá ser utilizado como mediador, buscando entender a origem dos problemas e, através de uma série de técnicas e de um método consistente, promover diálogos que possibilitem a resolução do problema.

Caso estas atuações sejam frustradas, então se deve proceder à aplicação dos dispositivos previstos no Regimento Interno, tendo como certo que haverá a incidência de multas e talvez até mesmo uma contenda judicial.

DC: Há uma clara expansão dos condomínios nas regiões urbanas e migração de moradores de um padrão de residências isoladas, individualizadas, para condomínio. O que deve mudar na cultura dos residentes quando se mudam para apartamentos?

Hernán Vilar: Perceber-se num novo ambiente e em um momento com pessoas e regras estabelecidas é sempre um grande desafio. Há quem tenha maior capacidade de adaptação e aqueles que, mais reservados e contidos, guardam distância como forma de preservar sua vida privada.

É importante que os condomínios tenham um kit de boas-vindas, seja para novos proprietários ou para locatários que passarão a viver segundo as regras explícitas do estatuto e do Regimento Interno, como também das regras implícitas, como nos casos de usos e costumes específicos daquela população, como, por exemplo, condomínios onde haja uma maioria religiosa.

Como diz o dito popular – “o combinado não sai caro”, é fundamental instruir os moradores e divulgar por escrito todas as informações que são pertinentes ao bom convívio entre os condôminos.

Para aqueles que estão saindo de suas casas e agora passam a conviver com outros moradores, é importantíssimo que se tome cuidado com a nova ambientação. Procure conhecer as pessoas e perceba quais são mais receptivas ou não, as que são mais sensíveis ou mais tolerantes. Pergunte sobre o condomínio e sobre como é a convivência entre os moradores. Esta é uma medida que ajudará muito a entender o contexto no qual um novo morador passará a submeter-se.

DC: De que maneira a administração do condomínio, incluindo Corpo Diretivo e também administradora, deve trabalhar para facilitar ou auxiliar a adaptação dos moradores ao convívio em condomínio?

Hernán Vilar: Seria muito apropriado que o novo morador fosse formalmente apresentado a todos para quebrar o gelo inicial. Isto poderia ocorrer na assembleia do condomínio ou mesmo em uma recepção mensal que poderia até mesmo saudar os aniversariantes do mês.

Com o lado social atendido, é então chegado o momento de formalizar as regras de convivência com o kit de boas-vindas.

É meu entendimento que um psicólogo deveria participar das reuniões condominiais e, com a devida frequência, fazer uso das dinâmicas de grupo para auxiliar que todos vivam em paz e em harmonia.

Por Rosali Figueiredo

Fonte: Direcional Condomínios