Água: Responsabilidade de todos

O tema água se encontra no topo das prioridades dos síndicos para 2015. Eles precisam correr contra o relógio para baixar o consumo e garantir o abastecimento interno, com medidas que incluem da gestão diária do hidrômetro à individualização, poço artesiano, reuso etc.

Cada condomínio tem procurado seu jeito de economizar água e garantir que os reservatórios permaneçam cheios mesmo em caso de corte na rede pública. As medidas comuns mais adotadas são mudanças nos processos de limpeza e rega, monitoramento diário do hidrômetro para identificar vazamentos e desperdícios, além do fechamento de piscinas, churrasqueiras, saunas e salões de festas. Porém, a busca por soluções mais estruturais tornou-se a prioridade orçamentária do momento e envolve cotações para implantação de poço artesiano, de sistema de reuso e da individualização.

No Condomínio Villa Amalfi, complexo de 522 apartamentos situado em mais de 70 mil metros quadrados no bairro do Panamby, zona Sul de São Paulo, a individualização dos hidrômetros começou a funcionar em fase piloto justamente no pico da atual crise. E os resultados não demoraram: além de sinalizar um grande vazamento subterrâneo na área comum, o sistema ajudou a baixar o consumo de 13.892 m3, em setembro de 2014, para 10.780 m3 em dezembro. A conta caiu de R$ 90.376 para R$ 33.640 (considerados aqui os 30% de bônus concedidos pela Sabesp). De acordo com o síndico Jessé de Oliveira, a individualização tem sido reforçada por campanhas junto aos moradores, já que a extensa área do empreendimento dificulta outras soluções, como o reuso e poço artesiano.

Também nos 72 apartamentos do Condomínio Edifício Glória Jardim Vitti a economia começou na individualização, em 2011, gerando uma queda imediata de 40% no giro do relógio. Depois se seguiram orientações aos moradores e, mais recentemente, restrição total ao uso dos equipamentos de lazer (piscina, churrasqueira etc.). “Só aqui a economia tem sido de 5 mil litros/dia”, aponta a síndica Elizabeth Bonetto. O condomínio localizado na Freguesia do Ó, bairro da zona Norte de São Paulo, partiu de um gasto de R$ 6 mil em 2008 (1.600 m3) para R$ 3,6 mil em janeiro de 2015 (cerca de mil m3), contando aqui com os bônus da Sabesp. Além disso, “o consumo é anotado todo dia às 7h pelo porteiro, que sinaliza quando há alteração e provável vazamento para tomarmos providências imediatas”.

Com 81 anos e há 14 síndica dos Edifícios Málaga e Maiorca, no Campo Belo, Aurora Rahal diz que nunca tinha vivido uma escassez tão drástica. “O tema não fazia parte da preocupação dos síndicos e agora entrou no cardápio das obras prioritárias”, reconhece. Seu condomínio, de duas torres e 60 unidades, promoveu orientação aos moradores e mudou os hábitos de limpeza e rega, conseguindo bônus nas contas emitidas pela Sabesp em 2014. E prevê a instalação de um poço artesiano na área ocupada pelo playground. Foi a solução escolhida, já que a individualização demandaria muita intervenção nos apartamentos e o reuso ainda gera dúvidas entre os condôminos.

BÔNUS X SOBRETAXA

Neste ano a Sabesp adotou normas mais duras de racionamento: além da sobretaxa instituída a partir de 8 de janeiro para quem aumentar sua média de gasto, a empresa anunciou que está diminuindo a pressão na rede. A sobretaxa será de 40% sobre quem gastar até 20% mais água do que a média antes da crise (de fevereiro de 2013 a janeiro de 2014) e de 100% para os que excederem esse limite. A política escalonada de bônus permanece, dando 30% de desconto para reduções de 20% no consumo; 20% de desconto para quedas entre 15% e 20%; e 10% de desconto para quem conseguir diminuir de 10% a 15% sua demanda mensal.

REUSO: O QUE APROVEITAR

O aproveitamento da água que brota das minas no subsolo, ou, colocado de forma mais apropriada, que provém do rebaixamento do lençol freático, tornou-se permitido com a publicação da Portaria 2069/2014, emitida pelo DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado) em setembro passado. Para o reuso dessa água, os síndicos devem providenciar um cadastramento junto ao órgão e, para minas com vazão acima de 5 mil litros diários, terão que solicitar outorga e apresentar análise físico-química e bacteriológica da água. Deverão ainda instalar um medidor de vazão na saída do reservatório. Em hipótese alguma, a fonte poderá ser utilizada pelas pessoas e mesmo nas piscinas.

De acordo com o engenheiro civil Roberto Boscarriol Jr., existem hoje várias possibilidades técnicas de reuso, com custos variados. O ponto central a ser observado pelo síndico está na potabilidade e na sua destinação, afirma. Em geral, a água do reuso deve ser aplicada somente para lavar áreas externas e jardins, venha ela da chuva ou do subsolo.

No caso da água pluvial captada na cidade, Boscarriol cita estudo da química Adalgiza Fornaro, da Universidade de São Paulo, indicando forte presença de metais provenientes da combustão dos veículos automotores, entre outros, além de fuligem, vírus e bactérias. Mesmo assim, ele defende o reuso, que pode ser viabilizado pela instalação de simples cisternas cobertas nos jardins dos condomínios ou através de sistemas mais complexos de captação, reservatório e bombeamento. Algumas providências, no entanto, são indispensáveis, conforme enumera:

  • - As cisternas devem ser tampadas e receber uma tela no ponto de captação da água para evitar a presença de pequenos animais, insetos etc.;
  • - As torneiras destinadas ao reuso (rega e lavagem do piso das áreas comuns) precisam ser trancadas por cadeados;
  • - Caso se deseje outra destinação para essa água, será preciso consultar um técnico, realizar análises e promover sua descontaminação. Métodos caseiros de tratamento não são indicados.

Outra possibilidade é o reaproveitamento da chamada água cinza, descartada pelo lavatório dos banheiros e a máquina de lavar roupa, por exemplo. Aqui se torna indispensável o tratamento. Prédios mais novos e sofisticados já são dotados da solução. A engenheira civil Sibylle Muller desenvolveu os projetos de muitos edifícios de São Paulo, estipulando uma tubulação própria para essa água, uma central de tratamento no próprio condomínio e um reservatório exclusivo de reuso, com o propósito de alimentar as descargas sanitárias.

EQUIPAMENTOS ECONOMIZADORES

Estudos realizados pela Sabesp indicam a eficiência dos equipamentos economizadores para a redução do consumo de água (leia mais em http://bit.ly/1DXUHXo). Segundo o técnico Mauro Imoto, que trabalha há 30 anos na área hidráulica, três deles seriam essenciais aos condomínios: redutores de vazão a serem instalados no flexível das torneiras ou no anel dos chuveiros; arejadores para as torneiras; e válvulas ou caixas acopladas de vaso sanitário com capacidade de seis litros por acionamento.

No caso das torneiras e chuveiros, os materiais preservam o conforto do usuário, já que o ar substitui a água e ajuda a preservar a sensação de vazão. Quanto à adaptação das descargas, Mauro lembra a necessidade de que também as peças sanitárias sejam trocadas para que o novo mecanismo funcione de maneira adequada.

O técnico deixa outra importante dica aos síndicos de prédios com mais de 14 andares: monitorar a válvula redutora da pressão. Segundo ele, a norma da ABNT 5626/1998 estabelece um limite de pressão de até 4 kg. “Se estiver acima, o consumo será maior e haverá riscos de rompimento dos materiais”, alerta.

 

Fonte: Direcional Condomínios